Pseudojornalismo. Egotrips. Punhetagem literária.

Quinta-feira, Julho 14, 2005


De um tempo antigo, de uma Misson que não sou mais - apesar das incríveis semelhanças:

Conto inacabado 428

...em estilhaços. Já reparou que basta dizer a palavra pra visualizar o chute mal dado, a bola atingindo a vidraça, o chão da cozinha repleto de cacos de vidro? Es-ti-lha-ços. É uma palavra que surge sempre em minha cabeça; brinco com suas possibilidades, sua sonoridade.

Acontece o mesmo quando digo tertúlia: a campainha toca, lá da cozinha sinto o cheiro da comida quase pronta, recebo os amigos, ofereço vinho. Todos sentados na sala, riem das fotografias mais recentes, cumprimentam minha mãe que sorri encantada. Tertúlia. Vejo Bruna encontrar na estante um livro que sempre quis ler, alguma recomendação de seu professor e passamos a discursar sobre nossos autores favoritos, as pessoas nos olham com cara de 'pensei que fôssemos nos divertir'. Zombam dos nossos vícios, dos adjetivos que empregamos, da nossa entonação a cada nova frase, das nossas gargalhadas.

E gargalhada? Impossível dizer sem recordar uma noite de sábado, a roda de samba na mesa do bar, relembrar passeios, pessoas, piadas internas. Como é improvável eu dizer domingo e não sentir saudade de alguém, desejar uma tarde chuvosa, um passeio de mãos dadas, confissões ao telefone. Domingo e chuva: desejo e saudade.

Uma certa preguiça também...


[texto publicado no extinto letras perdidas.


Quarta-feira, Junho 29, 2005


Para Mariana Castro. Por motivos óbvios.
[Ao som de Minha Mulher, do Caetano Veloso]

Breve Introdução ou prólogo

- Os seus olhos brilham.

Ela se vira e não digo que a amo. Ou que sinto muito por tudo aquilo. (imagino se ela desconfia que aquele bico, aquele quase-beijo que aprendi com meu irmão, é uma maneira de dizer ¿te amo¿) Quando ela se volta, tomo fôlego para falar, mas suas mãos já apertam minha bochecha, redesenham minha sobrancelha, Sérgio entra e outra vez o momento passa. Já o desejo...

Epifania ou como utilizar composições mentais aparentemente inúteis numa carta-texto cheia de pretensões

De repente tudo fica quieto. É tão rápido: no descer a rua de casa, no girar da chave, na procura de um telefone anotado num papel amarelo. Vem o silêncio. (Entre todas as coisas há um silêncio, quase imperceptível.) E há ela, que preenche este silêncio, em quem penso não-pensando. A imagem colada no fundo da cabeça.

[...]

Como a descoberta da luz, que numa certa manhã entrou pela janela do quarto e iluminou sobre o criado mudo um objeto qualquer e então me apaixonei pela luz, que desde que o mundo é mundo, incide sobre cômodas e objetos. Isso deve ter nascido de uma metáfora qualquer; enquanto eu descia alguma escadaria de metrô e ela me acenava por alguns instantes; quando surgia sorrindo (ah! o sorriso), apertando os olhos para enxergar melhor.

A ironia durante a composição do texto

Matheus com o dicionário na mão, vem da sala dizendo:
- Vou procurar ¿castro¿ pra ver o que significa.

Ressucitando o piegas

Trago as ruas do Recife para sua varanda; invento Deus para que ele pouse a mão em seu peito e suma com a dor e o desejo de gritar; desenho corações em troncos de árvores; ressucito o piegas. Que eu quero te saber feliz. Que é como me suponho ao seu lado.

Sem um subtítulo por enquanto

Às vezes há o susto ao perceber que a menina que a poucos instantes tinha as mãos entrelaçadas nas minhas, é agora aquela mulher sentada na cama, que fala sobre os homens que amou. Ri com gosto quando descobre meus infernos, quando me manda embora com uns olhos repletos de uma fúria que me envaidece. Algumas vezes - eu confesso - ela pede que eu fique pra sempre. Daí...

¿com os cachos dourados enroscados nas páginas de Cortázar¿

Quantas palavras, quantas nomenclaturas para o mesmo desconcerto.
[in O Jogo da Amarelinha]

O ¿gran finale seguido de silêncio com chuva caindo¿


Sábado, Junho 18, 2005


Os circos traziam iluminação
De carbureto. Próximos
Dos elementos. Quantos vendavais e
Chuvas de granizo!
Moinhos de garapa,
Feitos de madeira ¿ canaviais
E matas virgens com seus pássaros e
Frutas. Consumiram
Tudo e mais as lendas. Onde
Estarão os jacus e as pacas?
Os jenipapos e jatobás?
As estradas cortando as
Matas criavam histórias
E medos. Os caminhos
Também fugiram. Olhando
O céu, às vezes transformados em nuvens.
Saí das águas do mar
E nasci no cafezal de
Terra roxa. Passei a infância
No meu povoado arenoso.
Andei de bicicleta e em
Cavalo em pêlo. Tive medos
E sonhei. Viajei pelo espaço.
Fui à lua primeiro do que o sputnik.
Caminhei além, muito além, para
Lá do paraíso. Desdi de pára-quedas,
Atravessei o arco-íris, cheguei
Nos olhos-d¿água antes do sol nascer
Nasci e montei na garupa
De muitos cavaleiros. Depois
Montei sozinho em cavalo de
Pé de milho. Fiz as mais
Estranhas viagens e corri
Na frente da chuva durante
Muitos sábados. Dava poeira
No trenzinho de Guaivira.
Paco espanhol era meu parceiro.
Vivíamos apavorados com os
Temporais ¿ pareciam odiar
Aqueles lugares¿
Vinham ferozes contra as
Sete ou oito cabans
Desarmadas.
Num pé de café nasci,
O trezinho passava
Por entre a plantação. Deu a hora
Exata. Nesse tempo os velhos
Imigrantes impressionavam os recém-chegados.
O tema do falatório era o lobisomem.
A lua e o sol passavam longe.
Mais tarde mudamos para a Rua de Cima.
O sol e a lua moravam atrás de nossa
Casa. Quantas vezes vi o sol parado.
Éramos os primeiros a receber sua luz e calor.
Em muitas ocasiões ouvi a lua cantar.

Cândido Portinari


Segunda-feira, Junho 13, 2005


Landin.
[Minha alma, minha lama.]

Marcus me encontra de pijamas ¿ a mesma camiseta da noite anterior e uma bermuda florida e rasgada ¿ e desembesto a falar, apesar da voz rouca. Lamento mais um vez que tenha saído tão cedo da festa e o coloco a par de todas as conversas ¿ sexuais ou não. Emendo um assunto no outro pra que ele não note minha tristeza. Nem sentou; bebeu um copo de água, deixou os discos do Caetano e foi embora para não aumentar seu atraso. Pedi para ele levar um abraço a todos. Já tenho saudades.

As coisas precisam maturar dentro de mim agora. Juro. Mas saudade eu não breco não, nem tenho vergonha de confessar. (não vá pensando que escrevo porque tenho saudades; é o avesso; é o hábito; é minha forma de te usar, baby)

Segui o conselho de mamãe e arrumei o guarda roupa. Epifanias e bad trips. Não consegui tirar a foto do Ethan Hawke e decidi proteger minha pose de pessoa inteligente, letrada: ninguém mais abre o meu armário. Achei laços do Natal, papéis de carta, recortes de jornal ¿ um deles sobre a ALCA outro sobre a Nova Iorque ¿ um bilhete seu sugerindo que cabulássemos a próxima aula. As fotos eu não me atrevi a olhar. Elas eram de um tempo em que me fingia feliz, de um tempo que não sinto saudades e ando com uma estima tão baixa que as espinhas tão típicas daquele tempo me causariam crises terríveis. (encontrei o guarda chuva também)

Lembrei de Karen, a moça do Correio que reclamou por eu não ter ido direto ao seu guichê. Perguntou se a carta era simples. ¿Sim, simples correspondência¿, mas somente eu compreendi o gracejo.

E nesta última hora, a pessoa que eu quis ser quando crescesse foi a Ana Cristina César. Desejei ar blasé, sotaque escocês e lábios da Jolie. O telefone não tocou e eu lembrei que tinha orgulho e não telefonei também. Senti falta de meu violão, do cheiro da madeira, dos dedos doloridos. Sim, eu tenho roído unhas e por favor, pare de perguntar isso sempre que nos encontramos. (tão raros os nossos sorvetes noturnos e você preocupada com minhas unhas).

Não sei se Diogo Andrade ou algum texto que li recentemente, sei que sua cara não será das mais agradáveis quando ler isso aqui. Mas é apenas pra deixá-la com um gostinho amargo na boca, um desprezo que somente eu sei compreender ¿ e gostar.

Vou tomar chazinho que minha mãe fez pra eu melhorar da gripe. Suspeito que este tratamento VIP seja para me incentivar a procurar emprego novamente. Anyway¿ vá pra sua casa um dia desses, assim posso contar sobre as minhas paixões mais recentes e detalhes da minha vida sexual que somente Lauro e você têm acesso.

Te beijo. Te amo. (acredite)

Misson, a que não vale uma paçoca.

P.S.: Ganhei O Jogo da Amarelinha do Cortázar. E você?


Sexta-feira, Junho 10, 2005


Você chegou na hora certa.
Eu que não sou um bom lugar.


Segunda-feira, Junho 06, 2005


Já sei qual foi minha paixão mais recente: mamãe. Assim, como Ana Sabará diria.

E hoje ela me trouxe pedaço de bolo de fubá com goiaba. E meu coração ficou todo exaltado, batucando. Não pelo bolo que mataria a fome ou pela lembrança de minha obsessão por goiabas. É que ela me sorriu tão bonito que me senti amada também.


Domingo, Junho 05, 2005


Não sou Misson. Sou uma pessoa qualquer escrevendo aqui, que não Misson. Como eu não posso ser um gênio vinte e quatro horas por dia (porque essas vinte e quatro horas eu já ocupo sendo tanto quanto imbecil) darei algumas opções de post; levem em consideração o item que vocês julgarem como mais adequado.

1- Insira aqui algum texto desconexo como "viva o grande cocozão, antes de vermos o verde é possível quebrar a ponte." Essa sorte de literatura(?)-flash nonsense agrada a alguns tipinhos avant-garde fãs de Lewis Caroll.

2- Insira aqui crítica ferrenha a qualquer aspecto insignificante da vida cotidiana (uma fila de padaria, sapato com salto-agulha, a nova roupa do rei). Se a Clarah Averbuck enriqueceu assim, eu também posso.

3- Insira aqui pequeno parágrafo de cunho confessional que poucos entenderão. Rende comentários escassos mas faz sucesso nas músicas da Fiona Apple, além de dar a seu blog um tom intimista e mostrar que você não é apenas um blogueiro marginalizado e sem vida afetiva.

Reparem como todos os três itens citam nomes. Não foi proposital. Juro.


Terça-feira, Maio 31, 2005


A garoa fina. Finda. Junto com as duas da tarde. Sinto alegria e permaneço deitado. Mãos na barriga. A respiração no pulso da rede. O inseto rodeia a lâmpada. E pousa. Vem a voz. Lá de dentro. Quando olho. Nada.


Segunda-feira, Maio 30, 2005

Sexta-feira, Maio 27, 2005


Eu tinha muita coisa pra escrever: barulho de folhas secas, telefonema às oito hoas da manhã, recados espalhados por todos os cantos, minha mãe e seu bom humor, Matheus escrevendo um conto pra me mostrar, Victória que pergunta como foi meu dia e todas as pessoas que têm me feito mais feliz: Mariana, Bruna, Pedro, Lauro, Ana, Diogo, Briza, Ba, Felipe... Mas eu paro pra escrever, eu penso em tudo isso e o que fica é somente uma imagem: o piano.


Quarta-feira, Maio 25, 2005


Para Ba


Terça-feira, Maio 24, 2005


Eu, que quase não tenho vontade de viver, a materialista hipócrita, frustrada e amarga, desejei Deus naquela manhã. Era sábado e chovia. E não houve Deus.


Sexta-feira, Maio 20, 2005




miríade, nuvem, onda, praga


Domingo, Maio 15, 2005


Sempre que aposto comigo, perco.


Quinta-feira, Maio 12, 2005


Com os cem reais que ganhou com seu palpite certeiro - cabra com vinte e dois - decidiu tomar um porre inesquecível, em que - paradoxalmente - esquecesse tudo. De cachaça a Red Label, experimentou de tudo, e foram rodadas e mais rodadas até que sua fortuna transformou-se em três moedinhas douradas de dez centavos.

Pediu uma coxinha fiada e assim teve o que vomitar vinte minutos depois, em frente a uma loja de sapatos femininos, antes que dois pivetes lhe acertassem alguns chutes na barriga e dormisse sonhando com novo palpite.


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